“Iracema – Uma Transa Amazônica” nem a censura é capaz de silenciar a realidade

Lançado originalmente em 1974, Iracema – Uma Transa Amazônica”, dirigido por Jorge Bodanzky, Orlando Senna, se consolidou quase que instantaneamente como um clássico do cinema brasileiro. Mas, graças à censura imposta pela ditadura, o filme não teve seu lançamento nem sua circulação em seu país natal. Agora, 51 anos após ser censurado, o longa volta aos cinemas com restauração em 4K.

Iracema (Edna de Cássia), uma jovem de 15 anos recém-chegada a Belém, é tragada pela prostituição para sobreviver e passa a viajar com o caminhoneiro Tião Brasil Grande (Paulo César Pereio). Em uma jornada pelas construções da Rodovia Transamazônica, eles encaram o sofrimento e o doce sonho de um país em progresso, mesmo que a custo da miséria.

A linguagem utilizada para tratar da cruel realidade vivida não só por Iracema, como também pelos trabalhadores retratados ao longo da produção, mistura de maneira potente a narrativa linear, como estamos acostumados, com relato jornalístico e documental impostos nos diálogos. Conversas que soam como entrevistas são usadas para contrastar com o ponto de vista idealista do personagem Tião, em oposição à dura realidade de quem sofre a exploração.

Enquanto Tião é a persona do progresso prometido pela ditadura militar, Iracema representa os marginalizados da época, numa trama que denuncia as consequências da exploração da Amazônia.

Essa escolha acertada da direção, ao retratar a história pela perspectiva documental, reforça os relatos da população. Por vezes, planos longos e contemplativos mostram a destruição ao longo da estrada: o desmatamento e os incêndios florestais tomam conta da imagem e do som. O ruído das árvores cortadas rompe a tênue linha entre ficção e realidade, fazendo-nos lembrar que, de 1974 até hoje, pouco mudou em nossa forma de agir, e destruir.

Um pouco depois da metade do longa, há uma mudança de perspectiva: Tião Brasil Grande sai de cena, dando total destaque a Iracema. Como um objeto a ser descartado, ela é deixada para sobreviver à beira da estrada. A partir daí, o desfiladeiro emocional se inicia.

Edna encarna seu papel de maneira doce e quase inocente na maior parte do tempo, mesmo tendo que se vender para sobreviver, saltar de lugar em lugar, de briga em briga. A explosão temperamental que ocorre em momentos pontuais não é apenas o grito de uma jovem perdida, mas um eco do público: gritos e xingamentos que passam a catarse inevitável de acompanhar sua trajetória de modo impotente e domesticado.Mais do que uma crítica ao modo exploratório do capitalismo sobre regiões precarizadas, Iracema carrega uma narrativa poderosa que mistura revolta, contemplação e denúncia. O que só torna ainda maior o pesar por uma obra tão potente ter sido censurada em um dos períodos mais sombrios da história do Brasil.

A distribuição foi feita pela Gullane+ e a restauração foi realizada na Alemanha. O processo contou com a coordenação técnica de Alice de Andrade e o apoio do CTAV, Mnemosine, IMS, PUC-Rio, Instituto Guimarães Rosa e da Cinemateca Brasileira. Iniciativas como essa mantêm viva a memória artística nacional e reafirmam ao povo brasileiro a potência tupiniquim em contar suas próprias histórias.

Iracema – Uma Transa Amazônica estreou nos cinemas no dia 24 de julho.

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