Arte é incomodar. Apesar de algumas pessoas não concordarem com isso, parte do objetivo da arte é nos instigar à reflexão, e como fazer isso melhor do que tocando em temas sensíveis? Em 2019, Teddy Lussi-Modeste, diretor e co-roteirista de “O Bom Professor, foi acusado de assediar uma aluna do ensino fundamental… É a partir daqui vamos para o longa.

O jovem professor de literatura Julien (François Civil, de Os Três Mosqueteiros: D’Artagnan) vê sua carreira e vida serem colocadas em risco quando uma aluna de 13 anos, Leslie (Toscane Duquesne), o acusa de assédio sexual. A partir desse ponto, vemos Julien tentar desmentir o boato enquanto luta para manter sua vida profissional e amorosa.

Logo de início, fica claro que Julien não praticou tal ato, o que é a escolha mais acertada da produção. Tratar de um tema como esse exige inúmeras responsabilidades, e, sem o devido cuidado, a mensagem que poderia ser passada seria a de invalidação inúmeros casos de assédio. Em vez disso, vemos o olhar de um professor homossexual que sofre essa acusação e se sufoca ao tentar provar sua Inocência.

A jornada que ele encara passa pela burocratização policial, pela política da escola, pelo julgamento social ao provar sua inocência aos próprios colegas de trabalho e até mesmo por uma reflexão filosófica sobre como as metodologias de um professor que se esforça para causar uma mudança na vida estudantil podem ser a causa de sua injustiça. Ter o olhar voltado para como a vida de alguém acusado injustamente de um crime como esse é impactada carrega um peso tremendo, tanto para as pessoas que já foram afetadas por isso quanto para aquelas que podem usar esse discurso de maneira indevida.

Em relação à atuação de François Civil, vemos logo nos primeiros minutos sua paixão pela arte de ensinar, conduzindo um debate em sala de aula sobre a análise de um poema cujo tema é a sedução — tema que permeia o longa inteiro, já que reflete seu esforço em mostrar o lado sedutor do aprendizado e como isso acabou desencadeando toda a problemática. Nos momentos de sufoco, o ator transparece todo o desespero e cansaço que seriam esperados em alguém nessa situação.

No entanto, a escolha do final do longa, com uma catarse de Julien em surto, não se encaixa com o restante da narrativa. Era necessário, sim, ter um momento de explosão após tudo o que acompanhamos, mas essa escolha para o encerramento não apenas nos deixa com um gosto de inacabado na boca, como também parece não saber finalizar essa penitência.

Claramente, o fato de o diretor Teddy Lussi-Modeste ter passado por essa situação ajudou muito a captar os sentimentos de angústia transmitidos no filme, além de nos oferecer o olhar de alguém injustiçado em tal circunstância. No entanto, a falta de tato ao conduzir os momentos de sufoco pode condenar o longa ao esquecimento, sem o devido destaque para a construção de planos que transparecem o desequilíbrio de Julien ou para uma trilha sonora que nos transmita essa opressão.

O Bom Professor nos conta uma história que merece atenção — uma reflexão válida sobre o método de ensino e o olhar atento em acusações similares. Mesmo sendo um tema sensível, parte da função da arte é instigar a reflexão, tal qual um bom professor.

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